# O Clarão do Desperdício: Como o Porto Santo Trocou a Natureza pela Vaidade Iluminada

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- Published: 2026-10-28T23:07:56+00:00
- Author: Hugo Câmara

## A Ilha Que Quer Ser Vista do Espaço

Quem vive e conhece a fundo o Porto Santo sabe que a nossa terra é pequena, pacata
e não precisa de grandes artifícios. No entanto, a julgar pela intensidade da iluminação
noturna, parece que o grande objetivo de quem nos governa é que a ilha seja notada
a partir de um satélite. Ao longo dos últimos tempos, assistimos à substituição 
das antigas lâmpadas de vapor de sódio — que nos davam aquela claridade amarela,
quente e perfeitamente adequada — por projetores de luz branca, agressivos e fortíssimos.
Para quê tanta intensidade num espaço tão reduzido? Ninguém pediu uma iluminação
de estádio para ir à porta de casa.

## Aves Afugentadas e Dinheiro Deitado à Rua

O impacto deste excesso luminoso está à vista de todos. Antigamente, era comum termos
ninhos de aves mesmo aqui, perto das nossas casas e nos beirais. Hoje em dia, desapareceram
quase por completo. A luz branca cega e desorienta aves como as cagarras, especialmente
os juvenis que se esbardalham em terra em vez de seguirem para o mar. Mas o que 
roça o absurdo é a total falta de bom senso nos gastos públicos: em plena época 
baixa, às 3 horas da manhã, as luzes continuam ligadas em ruas onde não há uma única
pessoa a pé nem a circulação de um único carro. É uma gastança inútil de dinheiro
com eletricidade que não serve ninguém e apenas massacra o ecossistema. Não seria
muito mais lógico instalar sensores de movimento, para que a iluminação só acendesse
quando fosse realmente necessária?

## Betão na Praia, Cimento no Porto e Árvores Nem Vê-las

Quando olhamos para o horizonte do Porto Santo, percebemos rapidamente quem manda.
A flora e a paisagem natural estão em segundo plano, sufocadas por investimentos
milionários na praia e no porto que só servem para favorecer o Grupo Sousa, com 
o seu Lobo Marinho, e os empresários hoteleiros. O cimento tem sempre passadeira
vermelha, mas se falarmos da gritante falta de árvores na ilha, o assunto morre.
Curiosamente, as mesmas associações ambientalistas que agora pedem apagões de três
horas, ficam completamente ausentes e caladas quando se trata de exigir arborização
a sério e de combater o despesismo luminoso nos outros 364 dias do ano.

## Perguntas Pertinentes Que Ficam Por Responder:

 * Se a tecnologia permite instalar sensores de movimento, quem é que lucra, de 
   facto, com o desperdício de eletricidade a meio da noite em época baixa?
 * Quantas mais cagarras e outras aves terão de morrer ou abandonar as zonas habitacionais
   até se admitir que a luz branca é um erro ambiental crasso?
 * Porque é que o erário público flui tão facilmente para infraestruturas que beneficiam
   os hotéis e o porto, mas não há um cêntimo para plantar e manter um cordão florestal
   decente na ilha?
 * Onde está a voz grossa dos movimentos ambientalistas contra a falta de árvores
   e a invasão do betão que beneficia sempre os mesmos grupos económicos?
