# O que as crianças comem pode mudar a forma como se portam?

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- Published: 2026-11-04T09:58:40+00:00
- Author: Magda Liber

## Uma realidade que se vê todos os dias

Em cada turma há, em média, um ou dois alunos com dificuldades de atenção e controlo
da impulsividade. Alguns já têm diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade e Défice
de Atenção (PHDA), outros aguardam avaliação, e vários nunca serão avaliados. A 
PHDA afeta uma parte significativa das crianças em idade escolar e exige respostas
multidisciplinares, articuladas entre a escola, a família e os serviços de saúde,
incluindo a Direção Regional de Educação da Madeira.

Como professora, vejo também crianças que chegam ao colégio sem ter tomado o pequeno-
almoço, com lanches compostos sobretudo por bolachas, sumos e snacks embalados, 
e que a meio da manhã estão agitadas, irritáveis ou exaustas. Nem todas têm PHDA.
Muitas apenas não dormiram bem, não comeram bem ou não tiveram ninguém a organizar-
lhes a rotina.

## O que a ciência diz, e o que não diz

É aqui que convém ser rigoroso. A evidência não permite afirmar que o açúcar provoca
hiperatividade: os ensaios controlados, em que nem as crianças nem os adultos sabiam
o que estava a ser dado, não confirmam essa relação. Também não há prova de que 
uma dieta de eliminação cure a PHDA.

Há, no entanto, sinais que merecem atenção. Alguns estudos, incluindo um ensaio 
britânico com crianças da população geral, associaram certos corantes alimentares
e conservantes a um aumento da hiperatividade, e a própria União Europeia obriga
a aviso nos rótulos de alguns desses aditivos. Estudos observacionais ligam ainda
dietas ricas em alimentos ultraprocessados a pior atenção e pior desempenho escolar,
embora seja difícil separar a causa do efeito. Saltar o pequeno-almoço e dormir 
pouco aparecem também associados a dificuldades de concentração, e o sono é um fator
que pesa muito mais do que se costuma pensar.

Ou seja: a dieta não cria a PHDA, mas pode agravar sintomas num grupo de crianças
e piora o funcionamento de quase todas.

## O papel das famílias: falta de informação, não de amor

Quase nenhum pai ou mãe que conheço é negligente. A maioria trabalha muito, recorre
a refeições rápidas porque não há outra solução e acredita, com boa intenção, que
determinado produto “é para crianças”. O problema é a falta de informação: poucos
pesquisam sobre rótulos, aditivos ou sobre o impacto da alimentação no comportamento.
E quando um professor levanta a questão, a reação natural é a defesa, não a reflexão.

Por isso, a conversa com as famílias tem de ser feita sem acusações. Não se trata
de dizer “a sua filha come mal”, mas de perguntar “o que costuma comer ao pequeno-
almoço?” e de mostrar que pequenas mudanças podem ter efeito visível.

## O que pode ser feito a curto prazo

 * Pequeno-almoço regular: uma refeição simples (fruta, pão integral, ovo, iogurte
   natural) já faz diferença na atenção da manhã.Reduzir os produtos embalados com
   corantes e conservantes: começar pelos mais consumidos, como sumos, snacks e 
   doces coloridos, e ler os rótulos juntos.Rotinas fixas de sono e refeições: horários
   previsíveis ajudam a regular o comportamento.Comunicação escola-família: um caderno
   ou uma reunião curta, com linguagem simples e sem julgamento, pode esclarecer
   muito.
 * Reduzir os produtos embalados com corantes e conservantes: começar pelos mais
   consumidos, como sumos, snacks e doces coloridos, e ler os rótulos juntos.
 * Rotinas fixas de sono e refeições: horários previsíveis ajudam a regular o comportamento.
 * Comunicação escola-família: um caderno ou uma reunião curta, com linguagem simples
   e sem julgamento, pode esclarecer muito.

## Médio e longo prazo: uma resposta articulada

A alimentação é só uma peça. Para os alunos com PHDA, o que funciona é uma resposta
multidisciplinar: avaliação clínica adequada, acompanhamento psicológico quando 
indicado, medidas de apoio à aprendizagem previstas na legislação e uma relação 
estável entre escola e família.

A longo prazo, é preciso investir em educação alimentar nas escolas, com conteúdos
concretos e não apenas cartazes, e em formação de pais e professores. Também seria
útil que os serviços de saúde escolar tivessem mais meios para acompanhar estas 
crianças. Sem isso, continuaremos a pedir às famílias que façam sozinhas aquilo 
que o sistema não lhes dá condições para fazer.

## Ou seja…

A alimentação não resolve a PHDA, mas influencia o dia a dia de quem a tem e de 
quem aprende ao lado. Se a escola e as famílias puderem falar a mesma língua, com
informação correta e sem culpa, as crianças ganham, e os professores também.

## Comments

### By: Marta Nóbrega Freitas

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- Published: 2026-11-04T10:56:35+00:00

Excelente artigo sobre o tema. Ainda é um tabu falar sobre a alimentação das crianças.
Sem dúvida que os produtos industrializados estão a destruir o natural metabolismo
das crianças e por consequência o seu comportamento. É responsabilidade dos adultos,
principalmente dos pais e educadores, encontrar as opções mais saudáveis para as
crianças e jovens. É só comparar as gerações de há 50 anos atrás.
