O que as crianças comem pode mudar a forma como se portam?

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Na minha sala, há dias em que é difícil manter a atenção de uma turma inteira. Com o tempo, comecei a reparar que a alimentação faz parte desta equação, embora não seja a única.
Uma realidade que se vê todos os dias
Em cada turma há, em média, um ou dois alunos com dificuldades de atenção e controlo da impulsividade. Alguns já têm diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), outros aguardam avaliação, e vários nunca serão avaliados. A PHDA afeta uma parte significativa das crianças em idade escolar e exige respostas multidisciplinares, articuladas entre a escola, a família e os serviços de saúde, incluindo a Direção Regional de Educação da Madeira.
Como professora, vejo também crianças que chegam ao colégio sem ter tomado o pequeno-almoço, com lanches compostos sobretudo por bolachas, sumos e snacks embalados, e que a meio da manhã estão agitadas, irritáveis ou exaustas. Nem todas têm PHDA. Muitas apenas não dormiram bem, não comeram bem ou não tiveram ninguém a organizar-lhes a rotina.
O que a ciência diz, e o que não diz
É aqui que convém ser rigoroso. A evidência não permite afirmar que o açúcar provoca hiperatividade: os ensaios controlados, em que nem as crianças nem os adultos sabiam o que estava a ser dado, não confirmam essa relação. Também não há prova de que uma dieta de eliminação cure a PHDA.
Há, no entanto, sinais que merecem atenção. Alguns estudos, incluindo um ensaio britânico com crianças da população geral, associaram certos corantes alimentares e conservantes a um aumento da hiperatividade, e a própria União Europeia obriga a aviso nos rótulos de alguns desses aditivos. Estudos observacionais ligam ainda dietas ricas em alimentos ultraprocessados a pior atenção e pior desempenho escolar, embora seja difícil separar a causa do efeito. Saltar o pequeno-almoço e dormir pouco aparecem também associados a dificuldades de concentração, e o sono é um fator que pesa muito mais do que se costuma pensar.
Ou seja: a dieta não cria a PHDA, mas pode agravar sintomas num grupo de crianças e piora o funcionamento de quase todas.
O papel das famílias: falta de informação, não de amor
Quase nenhum pai ou mãe que conheço é negligente. A maioria trabalha muito, recorre a refeições rápidas porque não há outra solução e acredita, com boa intenção, que determinado produto “é para crianças”. O problema é a falta de informação: poucos pesquisam sobre rótulos, aditivos ou sobre o impacto da alimentação no comportamento. E quando um professor levanta a questão, a reação natural é a defesa, não a reflexão.
Por isso, a conversa com as famílias tem de ser feita sem acusações. Não se trata de dizer “a sua filha come mal”, mas de perguntar “o que costuma comer ao pequeno-almoço?” e de mostrar que pequenas mudanças podem ter efeito visível.
O que pode ser feito a curto prazo
- Pequeno-almoço regular: uma refeição simples (fruta, pão integral, ovo, iogurte natural) já faz diferença na atenção da manhã.Reduzir os produtos embalados com corantes e conservantes: começar pelos mais consumidos, como sumos, snacks e doces coloridos, e ler os rótulos juntos.Rotinas fixas de sono e refeições: horários previsíveis ajudam a regular o comportamento.Comunicação escola-família: um caderno ou uma reunião curta, com linguagem simples e sem julgamento, pode esclarecer muito.
- Reduzir os produtos embalados com corantes e conservantes: começar pelos mais consumidos, como sumos, snacks e doces coloridos, e ler os rótulos juntos.
- Rotinas fixas de sono e refeições: horários previsíveis ajudam a regular o comportamento.
- Comunicação escola-família: um caderno ou uma reunião curta, com linguagem simples e sem julgamento, pode esclarecer muito.
Médio e longo prazo: uma resposta articulada
A alimentação é só uma peça. Para os alunos com PHDA, o que funciona é uma resposta multidisciplinar: avaliação clínica adequada, acompanhamento psicológico quando indicado, medidas de apoio à aprendizagem previstas na legislação e uma relação estável entre escola e família.
A longo prazo, é preciso investir em educação alimentar nas escolas, com conteúdos concretos e não apenas cartazes, e em formação de pais e professores. Também seria útil que os serviços de saúde escolar tivessem mais meios para acompanhar estas crianças. Sem isso, continuaremos a pedir às famílias que façam sozinhas aquilo que o sistema não lhes dá condições para fazer.
Ou seja…
A alimentação não resolve a PHDA, mas influencia o dia a dia de quem a tem e de quem aprende ao lado. Se a escola e as famílias puderem falar a mesma língua, com informação correta e sem culpa, as crianças ganham, e os professores também.






